O que é um contrato 360? O acordo que fica com uma fatia de tudo
Digressões, merch, edição, patrocínios. O que é um contrato 360, o que leva mesmo a editora e quando vale a pena assinar? Em linguagem simples.
Uma banda assina o primeiro contrato discográfico, dá o litro durante dois anos, esgota finalmente uma sala para 900 pessoas, vende quatrocentas t-shirts na banca de merch e depois descobre que a editora também fica com uma parte das t-shirts.
Ninguém fala nisso no jantar da assinatura. Portanto, vamos ser diretos.
O que é um contrato 360, em linguagem simples
Um contrato 360 é um contrato discográfico em que a editora fica com uma percentagem de quase tudo o que a tua banda ganha, não só dos discos. O nome vem da ideia de cobrir os 360 graus da carreira de um artista.
Um contrato tradicional é estreito. A editora financia a gravação, o marketing e a distribuição, detém ou licencia os masters e fica com quase todo o dinheiro da música gravada até recuperar o adiantamento. O que ganhas ao vivo continua teu. A tua edição continua tua, desde que não a tenhas cedido à parte.
Um contrato 360 alarga a rede. As receitas que costuma procurar:
- •Ao vivo: bilheteira e cachets, por vezes calculados sobre o bruto
- •Merch, nos concertos e na loja online
- •Edição, ou seja, o que ganhas como autor
- •Trabalho de marca: patrocínios, publicidade, sincronizações
- •A cauda longa: clubes de fãs, nome e imagem, ocasionalmente representação ou modelo
Nem todos os contratos 360 apanham tudo. Os bons deixam fatias de fora. Os maus listam fontes de receita que ainda nem foram inventadas e aspiram-nas por antecipação.
Porque é que as editoras começaram a pedir tudo
Sejamos justos, isto não nasceu de pura maldade. Quando as vendas físicas ruíram e o streaming tomou conta, a música gravada deixou de sustentar carreiras sozinha. As digressões e o merch, esses, continuaram a crescer.
Assim, as editoras viram-se a pagar para construir a fama de um artista e depois a ver o dinheiro dessa fama aterrar num sítio onde não chegavam. O contrato 360 é a resposta delas. Se financiamos o arranque, partilhamos os resultados, apareçam onde aparecerem.
Essa lógica funciona quando a editora é mesmo o arranque. Cai por terra quando assinam uma banda que já faz boas digressões e depois reclamam parte de uma máquina que outra pessoa construiu.
O que estás mesmo a entregar
As percentagens exatas variam muito e são normalmente confidenciais, mas os intervalos de que se fala na indústria andam à volta de 10 a 25 por cento das receitas de digressão e merch, mais uma fatia relevante da edição. As condições da música gravada continuam tão pouco generosas como sempre.
Ainda assim, a percentagem não é o mais assustador. Há outras três cláusulas que fazem mais estragos.
Bruto ou líquido. Uma fatia do bruto da digressão é um animal completamente diferente de uma fatia do lucro. As digressões vivem de margens finíssimas e podem dar prejuízo. Uma percentagem do topo da conta pode sair de dinheiro que nunca chegaste a ficar.
Compensação cruzada. Se as receitas da digressão servem para pagar o adiantamento da gravação, um ótimo ano de concertos pode desaparecer dentro de um álbum não recuperado. Mantém os baldes separados sempre que conseguires.
Duração. Um contrato que continua a levar a sua parte durante anos depois do último disco é uma sombra muito comprida.
Quando vale mesmo a pena assinar um contrato 360
Às vezes vale. Se ninguém te conhece, não tens dinheiro e a editora põe em cima da mesa investimento a sério e pessoas de carne e osso, abdicar de uma fatia de receitas que neste momento não existem não é grande sacrifício. Vinte por cento de uma carreira ganham sempre a cem por cento de nada.
Aqui vai o teste honesto: o que fazem eles em concreto por cada receita de que querem uma parte? Se levam merch, tem de haver alguém a tratar do merch. Se levam digressões, tem de haver um departamento de digressões com nomes lá dentro. Pergunta o que acontece no terreno e depois pede que fique escrito no contrato.
Se ninguém souber responder, já tens a tua resposta. A nossa explicação sobre como funcionam os contratos discográficos cobre a mecânica de base, e a comparação entre editora independente e major mostra quem costuma pedir o quê.
Sentir a troca sem advogado
Os contratos 360 são difíceis de avaliar no papel porque não se consegue ver o cenário alternativo. Nunca ficas a saber quanto teria ganho a mesma banda sem o contrato.
Isso é uma das coisas que um jogo faz e a vida real não. No Road to Headliner o dinheiro da tua banda chega de vários sítios ao mesmo tempo, concertos, merch, streams, patrocínios, e consegues ver qual das fontes te está mesmo a sustentar numa dada temporada. O guia de receitas e economia explica como cada uma se comporta. Depois de sentires uma digressão a ficar à tangente enquanto o merch paga a renda em silêncio, a frase «uma pequena percentagem das digressões» deixa de soar pequena.
Um contrato 360 não é automaticamente uma armadilha. É uma troca e, como qualquer troca, só é justa se os dois lados aparecerem.
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